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Disco    
   

Grupo: Christina Rosenvinge
Título: Foreign Land
Ano: 2004
Editora: Smells Like Records
Formato: CD

É, no mínimo, estranho o percurso artístico da hispano-holandesa Christina Rosenvinge. No final dos anos oitenta, com arraiais assentes em Madrid, era uma estrela pop plastificada que enchia estádios de adolescentes, cujas maiores preocupações seriam as de encontrar a melhor forma de irradicar a acne da face e de procurar avidamente a revista com o próximo poster do duo Alex y Cristina. Alguns álbuns depois, com o fenómeno sugado até ao tutano pela indústria musical do universo hispânico, e com a crescente desilusão a tomar o lugar do brilho das lantejoulas e dos holofotes, Christina decidiu retirar-se, colocando um ponto final a um projecto com milhões de discos vendidos!

O retiro espiritual e artístico que se seguiu desenhou o seu percurso posterior ao êxito. Três álbuns a solo sucederam-se, dada um mais complexo que o anterior em termos líricos e de composição, e em que o papel inspirador de Leonard Cohen como figura de referência ajudou a configurar o seu novo conjunto de referências. A gravação do último desses três álbuns, acabou por levá-la até Nova Iorque, onde a sua fama anterior era menor ainda que uma ténue miragem. Nesta viagem acabou por aterrar nos estúdios Echo Canyon, cujos donos são os Sonic Youth, tendo Lee Ranaldo produzido o álbum.

Foi neste cenário que acabou por ser apadrinhada por Steve Shelley e Tim Foljahn (Steve dos Sonic Youth, ambos dos Two Dollar Guitar), que a convidaram para participar no álbum «Weak Beats and Lame-ass Rhymes» e que, depois, a passaram a acompanhar como banda de suporte. Foi assim que, em 2000, nasceu o primeiro álbum da nova era: «Frozen Pool». Um disco editado na Smells Like Records, etiqueta do próprio Steve Shelley. Com um som cru e directo, mas tocado por uma singeleza bela e poética, Christina ganhou, desde logo, um lugar especial no universo indie-pop, partilhando palcos com Elliot Smith ou Stereolab e sendo convidada para eventos marcantes, como os festivais All Tomorrow's Parties, South By Southwest e CMJ Music Marathon.

«Foreign Land» é, assim, o seu álbum nº 5. Para além de Shelley e Foljahn, conta também com as colaborações de Lee Ranaldo, e Smokey Hormel (Beck, Tom Waits) como presenças de peso. Mas não é apenas dos convidados que vive este disco. Vive essencialmente das canções simples que aqui se encontram. Simples, mas nem sempre fáceis, mas certamente nos antípodas do seu passado artístico que deve, agora, chorar de vergonha perante a dimensão credível e séria do seu percurso actual. Menos efusivo, menos dado ao clarão das luzes, mas bastante inspirado e inspirador.

Aqui encontramos, para além da condução melódica da guitarra, a sublime voz de Christina - que não deixa de trazer à memória, em iguais quantidades, as de Nico e Nancy Sinatra - uma secção rítmica que, sem grande aparato, mantém a distância certa entre a arritmia e a quebra de tensão, e alguns arranjos simples de instrumentos de corda que dão uma tonalidade dourado-mate às pouco convencionais melodias. Uma contextualização sonora que cruza referências que vão desde os Velvet Underground a Serge Gainsbourg, passando pelo já referido Cohen ou mesmo por Marianne Faithful.

Como pontos mais altos, há a destacar «Off Screen», «36», «Lost In D» e «German Heart». Quatro temas que, por si só, bastariam para justificar a edição deste disco e para aconselharmos o seu depósito no local dedicado às edições a manter à mão, para podermos usá-lo nas manhãs chuvosas em que a maior necessidade é arranjarmos uma banda sonora ajustada para vivermos o dia do lado de cá da janela.

     
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