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Disco    
   

Grupo: Colder
Título: Heat [promo]
Ano: 2005
Editora: Output Recordings
Formato: CD
Obs: Distribuído por Flur

A associação de Colder à figura do corvo, sugerida não só na capa de «Heat» como também na sua base na internet, está longe de ser inocente! Parece-nos mesmo que essa misteriosa ave é um óptimo ícone para simbolizar o complexo cruzamento de influências envolvidas na música produzida por este projecto, conduzido em toda a linha pelo parisiense Marc Nguyen Tan, que agora volta à carga depois do muito referenciado «Again», de 2003.

Tal como a plumagem do corvo, a música de Colder tem a sua suavidade tingida de negro, por sentimentos profundos de nostalgia e depressão, em que a dor se imiscui com a tristeza e ambas com uma convicção inabalável na existência de uma impotência crónica para contrariar os maus presságios. É também fria e granítica, como os castelos onde aquele animal gosta de habitar, em que a elegância da decoração interior não contraria eficazmente o tamanho desmesurado dos compartimentos, gerando um certo desconforto e criando um clima de tensão latente, mas que encerra em si um apelo quase irresistível de abandono a um destino desconhecido e de busca de compreensão dos contornos efectivos das sombras multiformes projectadas pelo crepitar de um archote, distorcidas ainda pela acumulação de fumos e pelo consumo exagerado de líquidos atordoantes.

O corvo é ainda uma criatura necrófaga, alimentando-se de corpos em decomposição. Esta vertente é assumida por Colder ao recuperar avidamente os traços fundamentais de alguns dos vultos marcantes da música dos anos 80, mesmo que não lhes possa ser diagnosticado o estado de putrefação artística ou de corpo ao abandono. É assim que encontramos a mesma claustrofobia percussiva dos Joy Division (ou da primeiríssima fase dos New Order), aqui aliviada do autêntico estado de paranóia que Ian Curtis lhe conferia. Constatamos também uma descendência geneológica dos Suicide, dos quais Colder retira um frenesim epiléptico e um certo lado maquinal, ainda que com a violência dominada e o charme adicionado. Reconhecemos ainda uma estética arty de quem cuida minuciosamente de cada peça com elegância e dedicação e como expressão única de uma ânsia interior e de racionalidade intelectual, numa recuperação da linha de baixo de Peter Principle e de toda a arquitectura sonora dos seus Tuxedomoon. Finalmente, podemos encontrar vestígios de alguma euforia funk, tal como praticada pelos Shriekbak enquanto derivação purificada da rigidez hermética dos Gang of Four. Uma euforia libertadora e de certo modo alienante, que incita a movimentos esquizofrénicos e descontinuados.

Com este quadro de referência a música de Colder correria o risco de estar enclausurada nos seus próprios fantasmas, incapaz de se afirmar autonomamente ou de produzir algo mais do que um morto-vivo. A verdade é que Marc Nguyen Tan consegue um disco notável exactamente porque faz uma articulação inteligente dos diversos elementos envolvidos e os combina com pormenores sofisticados de pura classe, redimensionando elementos estéticos que marcaram uma época, é certo, mas que ganham agora uma nova abrangência e formas autênticas de reenquadramento, não só à luz dos desenvolvimentos tecnológicos como também, principalmente, ao regresso de um amplo e galopante desalento social, sentido num mundo atordoado e em depressão.

     
Outros discos do mesmo artista / grupo   - Again | CD+DVD | 2003
     
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