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Disco    
   

Grupo: Os Seis Graus de Separação
Título: Ao Virar a Esquina
Ano: 2004
Editora: Cobra
Formato: CD

Os Seis Graus de Separação é o nome do mais recente projecto de Paulo Trindade e a designação sob a qual consegue, finalmente, materializar o sonho nunca abandonado mas sucessivamente adiado de produzir um disco. Um disco de canções, algumas com vinte anos de idade, que resistiram ao tempo e à apertada peneira com que Trindade sempre fez questão de filtrar a sua própria criação.

É evidente que a música que surge «Ao Virar A Esquina» é o epílogo de uma história que teve passagens importantes nos Ruge Ruge, Fanfarra Atroz, PVT Industrial, Os Eléctricos Chamados Desejo, AuAuFeioMau, Mão Morta, Baile de Baden-Baden, Um Zero Amarelo e Rua do Gin. E acaba, curiosamente, por complementar «Nús», dos Mão Morta, ao significar um grito de sobrevivência ou mesmo de uma certa redenção, pelo menos artística, da geração falhada que foi, por aqueles, colocada no centro da sua mais recente obra. Ou então poderá também significar o seu canto de expiação, a final exumação de um corpo em decomposição abandonado à sua sorte errante.

Neste disco encontramos também um roteiro de sons que foram sendo ouvidos numa certa Braga não-alinhada desde que esta, nos idos '80, foi colocada no mapa urbano da produção musical lusa. Temas que, mesmo com alguns títulos alterados, preenchem o imaginário quase sussurrado de quem com eles foi tomando contacto em pequenos espaços, normalmente apinhados de gente e aquecidos pelo calor etílico e pelo suor ansioso de quem vivia algo de novo, vibrante e único. Música que sempre ameaçou explodir e, falhando o seu tempo, se equivocou no berço da memória.

Mas «Ao Virar da Esquina» não é, na sua essência, um objecto de recordação enferrujado e enquilosado pela passagem dos anos. Há uma imensa intemporalidade nas estranhas melodias, pouco ortodoxas na sua estruturação non-pop, e na dolorosa e letárgica electricidade decantada sobre imagens difusas e acromáticas. Uma espécie de dimensão escondida e dilacerante que propõe uma poética e quase-romântica comunhão de emoções e uma estranha forma de negra e incómoda intimidade.

«Ao Virar A Esquina» é uma viagem no mar da contínua insatisfação e busca interiores do seu autor, que consegue assim explodir criativamente para fora de um círculo demasiado fechado para o seu talento. Promessa cumprida!

     
     
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