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Disco    
   

Grupo: Trans Am
Título: Liberation
Ano: 2004
Editora: Thrill Jockey
Formato: CD
Obs: Distribuição Ananana

Corrompendo todos os cânones das boas maneiras os Trans Am propõem-nos em «Liberation» mais uma viagem alucinada através do seu militantismo político.

Atentemos na seguinte descrição do disco:

Não sabemos se é defeito nosso mas conseguimos achar cada novo álbum dos Trans Am sempre como o mais brilhante exemplo da sua discografia. Em partes kraut, hair metal, hardcore e techno, seja o que for, a sua música completa-se e revela-se com o passar dos anos. Talvez por isso, «Liberation», mesmo se começa por parecer um exercício de revisitação ao passado do grupo, consiga surpreender tanto. Abrindo num clima de tensão assente em riffs e linhas de baixo sombrias, tem em «Uninvited Guest» um George W. Bush inspirado pelo que os demónios da sua consciência lhe segredam ao ouvido antes de dormir. Mas o Presidente norte-americano nunca fez este discurso – esta não é a versão oficial dos acontecimentos. E os temas que se seguem não são também a versão da pop de hoje. A partir do sétimo tema, «Divine Invasion II», renasce a ideia de um grupo enérgico e empenhado em percorrer de forma ecléctica as suas origens e ambições. E daí até ao fim, a banda reinventa-se, aperfeiçoa-se e tem na décima quarta faixa a síntese de tudo o que já foi. Mas, feito o elogio, voltemos ao estado das coisas.

O Verão em Washington, DC, não passa já pela recordação de crianças perseguindo libélulas e borboletas. Nas ruas menos movimentadas da capital do mais poderoso país do mundo, colegas de escola deixaram de se juntar nas entradas dos prédios ao fim da tarde, aguardando languidamente pela hora de regressar a casa. Acabaram-se as noites a brincar na rua até mais tarde e os fins-de-semana passados com amigos. Os parques infantis estão quase desertos e nos jardins públicos só há movimento à hora do almoço. Ao longo do dia, aleatoriamente, viaturas cruzam os subúrbios em marcha lenta. Por detrás de vidros fumados conseguem descortinar-se ocasionais reflexos de luz em óculos escuros. Estes carros têm matrículas governamentais e os seus passageiros procuram alguma coisa... ou alguém. Nas principais artérias da cidade há polícias em todos os cruzamentos e soldados colocados em pontos estratégicos. Em pequenas lojas fala-se de desaparecidos, de terroristas, de abuso de autoridade e de perseguição racial e política. Para os jovens dos liceus, a inocência não se renova e perde junto a rampas de skate, nem em festas ilegais nas traseiras de moradias. Se tiverem azar, perde-se a olhar para uma televisão inebriada por imagens de destruição, ouvindo declarações de políticos que se precipitam em vincular a necessidade de uma guerra, ou num sobressalto nocturno em que uma sirene de ambulância ou uma hélice de helicóptero rasgue abruptamente o silêncio e os arranque ao mundo dos sonhos. Com alguma sorte, perde-se num concerto de 3 homens que embora nunca tenham vivido sem ser na sombra do terror que justifica a grandeza de meios militares presentes na cidade onde nasceram, se lembram, no entanto, de um período em que se podia ainda andar nas ruas sem ser tão claro que o inimigo está mais perto do que se imagina. Os Trans Am nunca foram propriamente uma banda inocente nem ingénua. Claramente militantes na denúncia dos vícios e rotinas do sistema, expuseram ao longo de 8 anos preocupações sobre a informediatização, sistemas de vigilância governamentais, direitos civis, ecologia ou garantia das liberdades individuais expressas na constituição. Mas nunca foram tão explicitamente políticos como em «Liberation».

Phil, Nathan e Sebastian, desde crianças, foram – tal como nós, aliás - ensinados a não ultrapassar certas linhas. Aconselhados a seguir um caminho seguro, familiar e reconhecível, por circuitos conhecidos, sempre sem pisar no vermelho; porque para lá dessas barreiras estava tudo o que era excessivo, diferente, sujo, o que se desviava das normas: a ameaça exterior. Os Trans Am não só conhecem ambos os lados das divisórias como pareceram entrincheirar-se no coração de todas as emergências. Essa zona de fronteira foi por si transformada numa auto-estrada de infernos e perversões que encontra paralelo na história da música popular com estéticas do punk e do industrial. Hoje, chegou a hora de relembrar que a razão nem sempre está do lado de quem dita as regras.

Musicalmente, o problema foi o princípio. Alinhados com uma série de bandas no recém-aberto dossier post-rock, tiveram de manobrar nas entrelinhas até se tornar evidente que seguiam uma agenda muito própria. Aos poucos, em álbuns como «Trans Am», «Surrender to the Night», «Surveillance» ou «Futureworld», revelaram dominar o jogo de estilo e substância que advém de uma verdadeira exploração dos padrões mais representativos do género. Em 1996 sugeriam uma fusão de fantasias de jogos de computador e fragmentos de memória FM e em 1999 tornaram-se personagens Atari num mundo assumidamente retro. A colaboração com os Fucking Champs, de São Francisco, acabou por se tornar a ponte ideal para «TA». Aí, decidiram recordar os tempos mais hedonistas da década de 80, deixando-se influenciar por bandas como os Cars, Wolfgang Press, Slade, Midnight Star, New Order ou Art of Noise. Agora, quando o contexto em que surgem está, mais do que nunca, de acordo com o activismo político que sempre insinuaram, não podiam deixar de - se calhar pela primeira vez - permanecer iguais a si próprios. Subitamente, é esse o seu maior trunfo.

Texto da autoria de: AnAnAnA

     
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