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Disco    
   

Grupo: Khonnor
Título: Handwriting
Ano: 2005
Editora: Type Records
Formato: CD
Obs: Distribuído por Flur

Não é normal que um disco como «Handwriting» tenha como epicentro criativo a mente de um adolescente, dada a desenvoltura com que opera a simbiose entre melodia, ruído digital e riqueza de ambientes. A verdade é que Khonnor é o algo inocente nickname que Connor Kirby-Long usa para se apresentar como arquitecto paisagista de mundos musicalmente futuristas, mas com fundações firmes em construções com provas dadas.

Tal como está concebido, «Handwriting» resulta de um processo de isolamento e introspecção de Kirby-Long, que adopta um tom confessional de quem revela ingenuamente as suas mágoas, amores e aventuras, e que tem no laptop do seu quarto e na máquina de processar o som da guitarra os seus únicos interlocutores e dedicados ouvintes. E faz as suas revelações num tom tão sussurrado que se torna quase impossível perceber o que nos diz, apenas se sentindo no ar as insinuações de uma alma atormentada, que usa a escrita de canções como método expedito de canalização de sentimentos e emoções que, sabemos, assaltam as deambulações interiores de qualquer adolescente.

É o próprio Khonnor que revela o seu livro de influências quando na extensa lista de agradecimentos faz questão de incluir os nomes de Sonic Youth, My Bloody Valentine, Jim O'Rourke, Radiohead e Morissey. Não como artistas directamente envolvidos na produção de «Handwriting», mas como forças impulsionadoras e estruturantes do seu jeito de modelar os sons. Àquela lista seria necessário acrescentar Christian Fennesz para se fechar o colete de forças criativas que Kirby-Long aceitou tomar para si próprio como matéria-prima para os seus instintos criativos.

Com este quadro conseguimos perceber as formulações deste trabalho, que assim se inscreve num conceito de indietronica romântica e inventiva. Os ruídos aqui não são feedbacks de guitarra, mas passam pela construção de pequenos assaltos de glitches digitais às encantadoras e frágeis estruturas melódicas. Estas, por sua vez, são momentos contemplativos e murmurantes, bem ao estilo shoegazer, mas sem desdenhar o aconchego poético e sentimental que lhe permite um maior alcance dramático, quase cinemático. Tudo sem perder um sentido aguçado de experimentalismo e de busca de plasmáticas combinações entre o familiar e o inédito, entre a segurança de uma melodia e o arrojo da inventividade electrónica.

«Handwriting» é um excelente primeiro capítulo para a obra que o punho de Khonnor agora começa a traçar. Esperamos que a maturação de ideias e o fervilhar da juventude lhe mantenham a argúcia, o engenho e a inspiração para o enredo que lhe vai seguir.

     
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