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Disco    
   

Grupo: Devendra Banhart
Título: Cripple Crow
Ano: 2005
Editora: XL
Formato: CD

Não é preciso avançar muito na audição de «Cripple Crow» para perceber o quanto evoluiu Devendra Banhart enquanto artista e compositor, desde que espantou o mundo com «Oh Me Oh My...» obrigando a crítica a criar a etiqueta neo-folk para conseguir enquadrar a sua música num termo capaz de reflectir minimamente a estranheza que provocou esse conjunto de rascunhos de canções, gravadas em atendedores de chamadas, mas de onde se percebia que emanava um potencial encantador e uma excentricidade difícil de circunscrever. Era folk, sem dúvida, e era novo! E o mesmo quadro se aplicava por inteiro a «Rejoicing the Hands» e «Niño Rojo», ainda que as condições de gravação desses discos tenham sido substancialmente melhoradas.

Em que assenta, então, a revolução/explosão a que assistimos em «Cripple Crow»? Possivelmente são três os aspectos que conferem a este novo Devendra uma abrangência e importância tais que deslocam definitivamente o autor para o centro do quadro actual de criadores musicais que vale a pena tomar como referência.

Por um lado as condições de gravação em nada se comparam com as que envolveram qualquer dos registos anteriores. Agora não existe aquele ruído de fundo lo-fi, tornando a sonoridade muito mais cristalina e pura. Devendra Banhart emancipou-se do conceito de artista underground, para quem a técnica é apenas um impecilho à criação, e aventurou-se num processo de registo sonoro que contou com um estúdio à altura do seu talento e com a inclusão inédita da figura de um produtor que, no caso, é Noah Georgeson, um dos responsáveis pela expansão dinâmica do conceito sonoro acústico revelado por Joanna Newsom em «The Milk Eyed Mender», ajudando a transformá-lo numa jóia de inegável valor.

Para além disso, este é um disco que resulta muito mais de uma interacção comunitária de um conjunto de artistas - não há propriamente uma banda, uma vez que a sua morfologia é algo fluida e o papel central e aglutinador continua a ser o seu - a quem Devendra apelida de «Family», do que um processo isolado e individual de construção musical. É nesta espécie de núcleo libertário - bem ao estilo hippie e reflectido pela foto de família que, na capa, substitui os seus habituais esquiços sarrabiscados - que «Cripple Crow» recolhe uma ampla variedade de contribuições, com destaques naturais para as presenças de Andy Cabic (mentor dos Vetiver, banda onde Devendra desenvolve regular actividade), do já referido Noah Georgeson, Thom Monohan (Pernice Brothers) e de Eva e Bianca Cassidy (a dupla Cocorosie). Com isto, o composto sonoro global sai enriquecido e refinado, dada a inclusão de um amplo conjunto de intrumentos tão variados como a harpa, o violãocelo, a flauta, o piano, a guitarra acústica, o banjo e múltiplos objectos de percussão. Mas há também a introdução da amplificação eléctrica da guitarra e baixo, o que é novidade absoluta no universo conhecido de Banhart. Temos assim um ambiente celebratório abrangente, que resulta de uma aparente sobreposição dos aspectos artísticos e quotidianos da vida da «Family». Para além disso, aumenta a abrangência da sua costela hispânica, que se revela nas palavras em espanhol cantadas em cinco dos temas presentes em «Cripple Crow» - um dos quais intitulado «Santa Maria da Feira»!

Mas a principal transformação prende-se com o amadurecimento do talento do próprio Devendra Banhart para a escrita de canções. E isto advém de uma abertura despreconceituada a diversos géneros musicais, que o compositor se mostra agora capaz de processar segundo a sua peculiar excentricidade e de agregar à sua permanente busca das raízes étnicas e musicais da «native america», sem renegar a multiculturalidade intrínseca que lhe constitui a essência. É esta contínua busca de uma espécie de regresso às origens que o desperta para a composição de elegias que se socorrem de linguagens musicais com traços de blues, soul, rock and roll, tropicalia ou psicadelismo, para as cruzar com a sua primordial fundamentação folk de influência mística. Chegamos assim a um conjunto de 22 canções de uma elevada profundidade emocional, servidas por uma consciência social reveladora do estado de espírito de uma america envolvida em guerras que não são suas («It's simple, we don't want to kill» - sintetiza em «Heard Somebody Say») e que Banhart faz questão de reflectir com ironia e misturar com algum humor sórdido.

No final é uma enorme satisfação constatarmos que nada se perdeu com a mudança - muito pelo contrário! - e que Devendra Banhart mantém a sua integridade artística intacta, mesmo depois de arriscar forte com «Cripple Crow». E este é um disco que nos obriga a fazer nossas as suas palavras, agradecendo-lhe o lugar especial em nos obrigou a colocá-lo: «Some people write the songs that stays inside our souls»...

     
Outros discos do mesmo artista / grupo   - The Black Babies | MCD | 2003
- Oh Me Oh My… | CD | 2003
- Niño Rojo | CD | 2004
- Rejoicing In The Hands | CD | 2004
- Smokey Rolls Down Thunder Canyon [Ltd] | CD | 2007
- What Will We Be | CD | 2009
- Mala | Digital | 2013
- Ape In Pink Marble | Digital | 2016
   
Artistas / grupos relacionados   - Angels Of Light, the
- Antony and The Johnsons
- Joanna Newsom
- Megapuss
- Metallic Falcons
- Vetiver
     
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