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Disco    
   

Grupo: Delia Gonzalez & Gavin Russom
Título: The Days Of Mars
Ano: 2005
Editora: DFA Records
Formato: CD

Num ano marcado pela ascensão definitiva da DFA à notoriedade no seio da indústria discográfica, por força do acordo global de exposição/distribuição com a enorme EMI, não deixa de provocar um sorriso malévolo a constatação que a dupla James Murphy e Tim Goldsworthy apostaram numa estratégia de subversão interna, ao injectarem nos circuitos mundiais de distribuição um disco como «The Days Of Mars», aos quais, nem por sombras, estaria destinado.

A verdade e que se a EMI se aproximou da editora de Murphy/Goldsworthy em busca da potenciação do filão entreaberto pelos Rapture e, depois, escancarado pelos LCD Soundsystem estará certamente ainda a tentar digerir trabalhos de intervenção sonora pouco amigáveis, como são os casos de «Broken Ear Record» dos Black Dice e, menos ainda, deste «The Days Of Mars», de Delia Gonzalez & Gavin Russom.

O que aqui se pode ouvir dificilmente tem catalogação no contexto pop-rock, uma vez que, explicitamente, não é uma coisa nem outra. Ao longo dos seus 50 minutos de duração este disco apresenta apenas 4 longos temas sem qualquer vestígio de secção rítmica ou de uma estrutura de canção. Não há palavras, refrões, pontes ou versos, antes sim longas melopeias circulares suportadas em lentos crescendos de intensidade que, nunca atingindo picos, se desdobram em sucessões de momentos anti-clímax.

De «Rise», anteriormente editado em single, a «Black Spring», passando por «13 Moons» e «Relevée», Delia e Gavin envolvem-se inebriadamente na sobreposição de pequenas cornucópias sonoras produzidas por sintetizadores gagarejantes. Desse contínuo decalque desfazado e expansionista de vírgulas sonoras em levitação vão surgindo formas pouco nítidas de ornamentação cosmológica, mas que globalmente constituem desenhos compostos que atraiçoam o minimalismo que lhes está na génese. Não só porque permitem amplas divagações sensoriais como estimulam a sua observação segundo prismas únicos e irrepetíveis. Equivale isto a dizer que ouvir Delia Gonzalez & David Russom é, em si mesmo, uma experiência rica de abandono individual à arte da fruição musical, sem apego a preconceitos endérmicos.

Não é possível deixarmos de referir que «The Days Of Mars» é um disco com momentos notáveis, mas é também um trabalho exigente. Não só porque requer um certo estado de espírito para poder ser apreciado, como necessita da melhor atenção aos mais ínfimos pormenores para poder ser correctamente dimensionado e compreendido. A manipulação electrónica de expressão sonora a que aqui assistimos é estimulante mas simultaneamente prestada a equívocos estéticos. E isso, sem beliscar a novidade do caminho trilhado, pode diminuir o impacto do seu livro de estilo, roubando eficácia ao produto final. Pode mesmo acontecer que Delia Gonzalez e Gavin Russom estejam já numa outra dimensão, à frente do nosso tempo e assim sujeitos a sucumbir a julgamentos apressados. Ao mesmo tempo, «The Days Of Mars» apresenta-se como um interessante produto da electrónica, sujeita ao crivo estético da exigente criação humana, instada assim a levar mais longe o seu arrojo. Cara ou coroa?

     
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