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Disco    
   

Grupo: Stunt Rock
Título: This Is Stunt Rock Volume Three
Ano: 2005
Editora: Cock Rock Disco
Formato: CD

Stunt Rock é o projecto musical servido pelo arrojo e desconexão de William Flegal. «This Is Stunt Rock Vol. 3» é o seu 8º álbum de originais - isto se contarmos um split com os Venetian Snares - e aquele em que leva mais longe o seu instinto expansionista de criação e expressão.

No universo Stunt Rock é fácil detectar a opção de Flegal pela complexidade de linguagens, servidas pela simplicidade de operações. Ele utiliza o laptop enquanto medula óssea de um corpo musical com osteoporose, e o corta-e-cose enquanto gesso que garante a solidificação dos membros e a sua unidade existencial e de movimento. Ou seja, a música de Stunt Rock vive da corrosão de qualquer tentativa de simulação de estrutura orgânica e da sua fragmentação em inúmeros micro-corpos sonoros sem, no entanto, deixar de fazer sentido global quando observado a distância recomendável. Há quem chame breakcore às vizinhanças técnicas e estéticas deste território, que assume a herança do punk mas crê na electrónica e na tecnologia, não só como câmaras de eclosão catártica como também na possibilidade digital de alterar a realidade. É, no fundo, a troca da energia dos Watts pela profecia dos Gigabytes enquanto combustível que alimenta a face da revolta juvenil.

Com este entorno, percebe-se que a agonia de Flegal enquanto ser incapaz de perceber e controlar o alcance da sua envolvente social se traduza numa narrativa musical constituida por peças intrinsecamente caóticas, sem quaisquer preocupações de adopção de géneros ou estilos específicos. Cada tema é gerado por momentos aparentemente desligados entre si, submersos em turbilhões de samples sem relação evidente, em construções marcadas por ritmos desconexos e cadências descompassadas e onde a única certeza é a incerteza. É assim que podemos escutar vozes retiradas de filmes classe-B para, no piscar de olhos seguinte, sermos assaltados por uma descarga violenta de energia, proveniente de uma guitarra pilhada em parte incerta. Nova síncope e o hip-hop afirma-se como o momento descartável da sequência, logo atropelado por furiosos ruídos em loop, de enigmática proveniência, ou tranquilizado pela bonomia retirada de uma canção de Neil Young.

Ao longo de todo o disco não conseguimos deixar de nos sentir arrebatados por um irónico sentido de humor, quase demente e certamente perturbado, que emerge de cada surpresa em cadeia e da incerteza de compreensão de uma linguagem nova, cujos axiomas nos parecem escapar, mas relativamente à qual temos a forte suspeita de que, se convenientemente analisada, corresponde à tradução musical da total desorientação social e ideológica que aprisiona, sob a aparente forma de liberdade, as novas gerações dominadas pela ilusão tecnológica.

É assim que «This Is Stunt Rock Vol. 3» nos parece ser uma banda sonora excelente para a desorientação existencial de uma geração despontante, que se manifesta incapaz de discernir o seu mundo e o confunde com um jogo de computador, em que os comportamentos de risco não acarretam consequências, em que os labirintos erguidos nos parecem indecifráveis e onde o virtual tenta iludir a falta de perspectiva futura com a falsa crença em vidas inesgotáveis, códigos de batota e em créditos extra.

     
     
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