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Disco    
   

Grupo: Tenebrous
Título: Tenebrous
Ano: 2006
Editora: Fire
Formato: CD

Tudo se passa numa sala branca. Incandescentemente branca. Onde o excesso de claridade ofusca os contornos dos objectos e os torna impossíveis de ver e distinguir. A um canto está um pequeno cubo preto, sem brilho. Dobrado lá dentro encontra-se um homem. Vestido de preto e de óculos escuros. Tem a testa apoiada nos joelhos e nas mãos uma tulipa. Preta! Este homem nada faz senão sentir a agonia obscura do seu mundo e cantá-la. Ele é Steve Gullick. E este é o mundo dos Tenebrous!

De Gullick já conhecemos o seu excelente trabalho enquanto fotógrafo musical e director/editor das revistas Careless Talk Costs Lives e Loose Lips Sink Ships. Sabemos também que é um terço dos ...bender, autores de um dos melhores e mais emotivos discos de 2005. Nos Tenebrous encontramo-lo ainda mais exposto na sua intimidade, revolvendo emoções e colocando-as em canções melancólicas, servidas a cru, sem qualquer aparato técnico. É alguém que se revela nos seus momentos de solidão e de (rara) inactividade, assaltado por fantasmas que lhe ensombram a existência e o fragilizam.

O formato Tenebrous, apesar de contar com a participação de John Webb e de Jesse, Sly e Curtis, os três filhos de Gullick, é essencialmente uma caminhada interior dolorosa e isolada. E por isso desalentada e carregada de escuridão. É uma espécie de blues branco sem virtuosismo, em estado bruto, formando torrentes de emoções que a sua voz agonizante se encarrega de enclausurar numa expressão de total desencanto. Um estado de desespero e agonia que percorre o disco do primeiro ao último segundo, entre acordes de guitarra perdidos, teclas soltas de piano e aquela tristeza inexplicável que todos experimentamos algum dia. Algo demasiado individual para se poder confinar ao formato de uma banda.

No tema «Tenebrous», Steve Gullick solta um grito de desespero: «I don't know what I'm supposed to do. I'm leaving me. I'm leaving you». É um estado de revolta muda que advém de uma sociedade que faz tábua rasa da(s) cultura(s) com a plaina messiânica da globalização, como se ouve em «No Culture». Uma sensação de atordoamento perante a não compreensão do seu lugar no mundo, expressa em «Been Hit» («Been hit so hard, can't breed. No time to say goodbye»). Alienação que conduz à degradação contada em «Drinking Man» («Drinking man, you're a sinking man»), mas também à incapacidade de ser acolhido no amor, como expõe em «Forever Blue».

«Tenebrous» é um choque! Porque a sua audição não é confortável nem de fácil assimilação. É mesmo emocionalmente exigente, tal a carga sombria que implode em cada canção, como se fosse uma detonação subaquática da qual só se sentem as ondas de choque. Mas exala um apelo incompreensível, que impele a nova audição e à revelação progressiva de que em nós também há momentos sombrios com emoções tenebrosamente decalcadas das que aqui se expõem . E de que naquela sala cabem ainda muitos mais cubos negros, sem brilho, onde por momentos podemos abandonar a cabeça e apoiá-la nos joelhos, para que entendamos no meio da escuridão o que realmente significa estar vivo! A julgar por toda a sua actividade é isso que faz Steve Gullick...

     
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