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Disco    
   

Grupo: Silver Jews
Título: Tanglewood Numbers
Ano: 2005
Editora: Drag City
Formato: CD

O mundo do rock'n'roll está cheio de histórias como a de David Berman. Histórias de depressão , abuso de substâncias tóxicas, abandono da profissão, chegada ao fim da linha, tentativa de suicídio e, finalmente, de regeneração humana e resgate das trevas. Histórias que alimentam a criatividade e acabam narradas em disco, como se aí encontrassem um púlpito seguro para emitir um aviso à população, ávida de saber como é estar do outro lado da vida, mas suficientemente prudente para não pisar o mesmo trilho. Mas também uma forma segura de deixar uma ferida aberta, como modo de colocar uma pedra emocional sobre o assunto, sem no entanto o remeter para as lendas escondidas na memória. «Tanglewood Numbers», o novo disco dos Silver Jews, é esse disco feito relato. Mas o que o distingue de quase todas as outras narrativas semelhantes é o inegável talento de Berman, não só para escrever uma palavra certa depois da outra, como para, fazendo uso da tradição cancioneira norte-americana, as envolver num manto melódico, também ele tecido a poesia amarga e a emoção dorida.

Para celebrar este regresso dos Silver Jews aos discos, quatro anos após «Bright Flight», Berman rodeou-se de um conjunto de notáveis músicos que consigo repartem os méritos. Aos membros efectivos e fundadores, Steve Malkmus e Bob Nastanovitch (ambos de fama feita nos Pavement), juntam-se Will Oldham (Palace, Bonnie 'Prince' Billy), Duane Denison (Jesus Lizard, Tomahawk, Firewater, Pigface), Tony Crow (Lambchop), Paz Lenchantin (A Perfect Circle e Papa M) e Bobbie Bare Jr naquele que é o grupo mais eléctrico e completo que alguma vez com Berman registou um disco. E há ainda o trabalho de engenharia sonora de Mark Nevers (Lambchop), que acrescenta um toque de brilho e competência à maior propulsão decibélica agora exibida pelos Silver Jews.

Ao longo dos dez temas de «Tanglewood Numbers» percebemos que há uma alteração de perspectiva musical adoptada por Berman. Se nos trabalhos anteriores encontrávamos uma espécie de country de arestas rock agora percebemos a subtileza deste rock de tingimento country. Uma mudança precipitada pela urgência emocional deste disco, mas onde a grande atenção prestada aos pormenores continua presente, mesmo no meio de um maior preenchimento instrumental que acaba por remeter a distinta voz de Berman - por muitos tida como a razão para ouvir um disco dos Silver Jews - para um papel menos destacado e mais integrado com a liderança das guitarras.

A sensibilidade poética de Berman e a sua literacia (para além de ter já editado um livro é diplomado em literatura inglesa e foi nesses domínios que leccionou na Universidade, antes das suas dependências o forçarem a abandonar) são as ferramentas que usa com mestria para criar uma narrativa que impressiona pela sinceridade com que relata os contornos mais dolorosos do seu percurso pessoal recente. Quando canta “there is a place past the blues / I never want to see again” ou “if we had known what it takes to get here / would we have chosen to?” percebe-se um remorso comovente por ter chegado tão longe, confirmado por esta outra linha “Let’s not kid ourselves / It gets really, really bad”. Revela de igual modo o desespero vivido no «quase outro lado», quando canta “I saw God’s shadow on this world”, ou "Where does an animal sleep when the ground is wet?". Fala-nos ainda do momento em que começou a reverter a sua situação, com a ajuda da sua mulher Cassie (a voz feminia do disco), quando afirma "I'm Getting Back Into Getting Back Into You".

É na estreita linha entre arrependimento e júbilo que Berman joga tudo o que se pode ouvir em «Tanglewood Numbers», produzindo assim um disco que se situa entre a serenidade de quem tem razões para olhar em frente e a dor de carregar consigo um pesadelo de difícil esquecimento. Um conto real de vivida alienação e sinistro desespero, servido por um rock pastoral, mas enérgico, triunfal, mas discreto, cuja audição se recomenda urgentemente. O risco é a dependência que esta história de dependências pode criar...

     
Temas   1. Punks In The Beerlight
2. Sometimes A Pony Gets Depressed
3. K-Hole
4. Animal Shapes
5. I'm Getting Back Into Getting Back Into You
6. How Can I Love You If You Won't Lie Down
7. Poor, The Fair, The Good, The
8. Sleeping Is The Only Love
9. Farmer's Hotel, The
10. There Is A Place
     
Outros discos do mesmo artista / grupo   - Arizona Records + | CD | 1993
- Starlite Walker | CD | 1994
- Send In The Clouds | CDS | 1998
- American Water | CD | 1998
- Bright Flight | CD | 2001
- Tennessee | CDS | 2001
- Lookout Mountain, Lookout Sea | CD | 2008
- Early Times | Digital | 2012
   
Artistas / grupos relacionados   - Pavement
- Stephen Malkmus & The Jicks
     
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