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Disco    
   

Grupo: Fuckhead
Título: Lebensfrische
Ano: 2007
Editora: Mosz
Formato: DVD
Obs: Distribuído por Vortex

Tudo nos Fuckhead é excessivo e levado ao extremo: a música é violenta, a atitude afronta todas as convenções sociais, as performances são rudes, físicas e brutais, os seus corpos são cobertos por detritos e tatuagens, as suas produções visuais são torrentes digitais extravagantes e alienadas. Tudo isto encontra um suporte de confluência ajustado no DVD «Lebensfrische», a primeira edição do grupo austríaco desde 1998.

A longa inactividade editorial não corresponde à vitalidade dos Fuckhead ao longo dos últimos nove anos. A produção de peças multimédia e de inúmeras performances de palco - que os levou a Serralves em 2006 ou ao Meltdown Festival programado por Scott Walker, por exemplo - e a presença em inúmeros festivais audiovisuais não encontrou reflexo, até agora, na sua fixação em suportes físicos de difusão. Mas este longo período de ausência é largamente compensado pela oferta presente em «Lebensfrische». Do ponto de vista puramente sonoro encontramos aqui disponível a sua discografia integral, em formato MP3, incluíndo 7" e 12", discos ao vivo, os dois álbuns de estúdio anteriormente editados e ainda um conjunto inédito intitulado precisamente «Lebensfrische». Em termos visuais somos brindados com os seus trabalhos em vídeo, desde os clips iniciais - destinados a apoiar as edições fonográficas - e actuações ao vivo, até às produções pensadas na, sua origem, como peças artísticas em que o discurso resulta da simbiose entre som e imagem, incluíndo as resultantes da aplicação de técnicas avançadas de programação 3D em tempo real.

Mesmo depois de sucessivas audições ou visualizações, «Lebensfrische» não pode deixar de provocar reacções extremas, tal a radicalidade que a proposta dos Fuckhead encerra. A sua brutalidade, violência, ironia grotesca e anarquia ideológica não se compadecem com meios-termos e tratam de dilacerar todas as concepções prévias de harmonia discursiva, seja musical ou visual, produzindo relatos esquartejados de vidas no limite do desespero e do caos civilizacional que submerge a cultura urbana ocidental dos nossos dias. A sua regra é a desorientação totalitária e os seus corpos desnudados atropelam-se em confrontos sem sentido, rodeados por dejectos, detritos e imagens de significado inalcançável. Desconforto, confusão, estranheza ou nojo são reacções às quais não é possível escapar quando confrontados com a rudeza formal e estética deste colectivo, liderado por Didi Bruckmayr, doutorado em Ciências Económicas e desde cedo dedicado às artes performativas e videográficas.

A militância dos Fuckhead em favor de uma cultura de choque e uma atitude artística frontalmente provocatória coloca-os num lugar sem paralelo no contexto actual, sendo necessário fazer um exercício de arqueologia musical para lhes reconhecer traços genealógicos no período marcado pela no-wave nova-iorquina, na lugrubridade do death metal e na torrente anacrónica da música industrial liderada pelos Test Dept, tudo processado à luz de uma lógica apenas possível na era digital. Com esta ascendência artística, percebe-se que este DVD é tudo menos uma proposta de acesso fácil ou de compreensão acessível. É, isso sim, um enorme desafio à capacidade crítica e ao discernimento emotivo, incapaz de ser apelativo a espíritos acomodados, que não cultivem um gosto especial pelo risco nem assumam a aventura que é a descoberta da diferença, mesmo que essa busca não seja um caminho marcado pela facilidade ou pelo prazer imediato.

     
   
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