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Disco    
   

Grupo: Paralell 41
Título: Paralell 41
Ano: 2012
Editora: Baskaru
Formato: CD+DVD

Geograficamente o paralelo 41 é uma linha imaginária situada 41 graus a norte do equador, que atravessa países como Portugal, Espanha, Albânia, Macedónia, Grécia, Cazaquistão, Turqui, China, Japão e, para o caso que nos interessa, Estados Unidos e Itália, precedendo dessa forma à ligação imaginária entre a Nova Iorque de Julia Kent e a Nápoles de Barbara de Dominicis, as duas estetas sonoras do projecto Paralell 41.

Julia Kent é uma violaocelista conhecida principalmente pela sua colaboração em estúdio e em palco com Antony Hagerty, sendo um dos Johnsons, mas cuja actividade lhe permitiu igualmente tocar com Angels of Light, Ben Weaver, Devendra Banhart, Donovan ou Library Tapes.

Barbara de Dominicis não tem tanta visibilidade, uma vez que fez parte de formações pouco expostas mediaticamente, como Cabaret Noir, The Body_exposed, Poe-Si e Kuul-Ma, mas a sua abordagem musical adopta os sons reais, urbanos ou naturais, como matéria prima principal das suas experimentações, as quais serve ainda com a sua voz estranha, por vezes explorada nos limites das possibilidades harmónicas.

Para a elaboração deste álbum de estreia, Julia e Barbara foram-se encontrando ao vivo, em sessões de improvisação que foram ganhando consistência e solidificando um conjunto de proto-canções, registadas em locais tão diversos e espantosos como um túnel abandonado, um forte de defesa ou uma antiga fábrica de lanifícios, que assim foram influenciando a direcção dos sons produzidos. Ou seja, sem que houvesse partituras definidas ou ideias de partida, cada sessão fluiu de acordo com a inspiração ditada pelos locais em que decorreram, criando uma espécie de ligação entre a configuração do espaço e a música que nele foi produzida, deixando ao momento e ao acaso uma parte importante do processo.

E o que se ouve em «Paralell 41» é uma música evocativa de espaços abandonados, acerca dos quais se podem imaginar múltiplas histórias sem final conhecido, mas com sombras, tensão, ansiedade e mistério como combustível principal do seu enredo. Narrativas densas, graves como o som do violaocelo, estranhas como os sussurros que se podem ouvir, paranóicas como os sons circulares que se repetem em ondas de interrogações, subtis como a electrónica desvanecida que por ali esperita, agoniadas como a voz que as serve em desespero solitário, abrindo espaço entre ruídos diversos e muralhas de ecos perdidos. Como se Laurie Anderson se juntasse a Meredith Monk e decidissem criar a banda sonora de uma qualquer cidade no dia seguinte à catástrofe nuclear, na qual o crepúsculo da radiação e o pesadelo das sombras desenhasse uma infinidade de vultos anónimos e inoculasse o vírus da falta de esperança. Mas é exactamente neste cenário quase dantesco que Julia e Barbara conseguem, com este disco, ampliar as definições de belo e de desafiante e assim criar uma música que é, com igual força, requintadíssima poesia negra e uma peça de arte-total.

Nota: Para além dos sons, esta edição oferece ainda o interessantíssimo documentário «Faraway Close» da autoria de Davide Lonardi, no qual se dá a conhecer melhor o processo criativo de Julia Kent e Barbara de Dominicis.

     
   
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